Gilda Queiroz
A obra de Gilda Queiroz inscreve-se no território fértil onde memória, identidade e contemporaneidade se articulam com vigor e lucidez. Nascida em Rubim, no Vale do Jequitinhonha – MG, a artista traz para o centro de sua pesquisa não apenas a geografia de origem, mas a espessura simbólica de um território que molda seu olhar e sustenta sua ética poética. Sua trajetória internacional, consolidada ao longo de mais de quinze anos com exposições na Europa, nos Estados Unidos e na África, não representa um afastamento de suas raízes, mas antes um alargamento de horizontes que reforça a consciência de pertencimento.
Nas pinturas apresentadas, percebe-se um universo visual que conjuga intensidade cromática e densidade narrativa. A composição marcada por círculos, mandalas, flores e signos gráficos evoca tanto a organicidade da paisagem quanto a estrutura ritualística da memória coletiva. As formas não se organizam de maneira meramente decorativa; elas instauram um campo simbólico em que o feminino se afirma como potência estruturante. As figuras sugeridas, por vezes fragmentadas ou dissolvidas na matéria pictórica, remetem à pluralidade das experiências femininas, à força ancestral que atravessa gerações e resiste às tentativas de apagamento.
Em outra vertente, a obra que se aproxima da gravura evidencia um movimento de depuração formal. A paleta reduzida e o contraste entre claro e escuro instauram uma atmosfera de densidade quase arcaica. As figuras, dispostas em uma espécie de friso contemporâneo, evocam mitologias pessoais e coletivas. Há nelas uma corporeidade estilizada que dialoga com tradições gráficas ancestrais, mas sem nostalgia. Trata-se de um retorno consciente à origem, não como repetição, mas como reinvenção.
A formação em moda e design transparece na organização espacial e na atenção às texturas, às camadas e aos ritmos visuais. Contudo, tais referências são absorvidas e transformadas em linguagem autoral, jamais convertidas em mera estilização. O que se observa é um equilíbrio rigoroso entre inovação formal e fidelidade a uma matriz cultural que permanece viva.
O uso recente de pigmentos minerais e a busca por uma paleta mais contida revelam uma artista em estado de maturidade. A matéria torna-se mais significativa, o gesto mais preciso, a cor mais essencial. A exuberância anterior não desaparece, mas se concentra. Há uma passagem da expansão para a síntese, do excesso para a densidade.
Em sua produção, a arte não é concebida como exercício isolado de linguagem, mas como território de responsabilidade. O compromisso social que atravessa sua obra manifesta-se na valorização de narrativas femininas, na afirmação da identidade cultural do Vale do Jequitinhonha e na recusa de uma homogeneização estética globalizante. Ao mesmo tempo, sua prática não se fecha em regionalismos. Pelo contrário, afirma-se como profundamente contemporânea, capaz de dialogar com públicos diversos sem diluir sua singularidade.
Gilda Queiroz constrói, assim, uma obra que articula pertencimento e abertura, ancestralidade e cosmopolitismo, memória e invenção. Sua pintura é um campo de resistência sensível e de afirmação poética, no qual a identidade não se cristaliza, mas se expande e se transforma.
- February 23, 2026

