Fernando Velloso
Fernando Velloso constrói uma obra em que a pintura parece ter aprendido com a arquitetura aquilo que ela raramente admite: a disciplina do espaço. Não se trata de “pintura arquitetônica” no sentido ilustrativo, mas de uma inteligência estrutural aplicada ao plano. A superfície, em Velloso, não é um campo neutro a ser preenchido, e sim um terreno a ser organizado, tensionado, estabilizado. A formação em arquitetura, longe de impor uma geometria decorativa, amadurece na obra como senso de engenharia visual: a imagem precisa sustentar-se, como se tivesse peso próprio.
Essa vocação construtiva convive com uma dimensão teatral que não é mero ornamento, mas método. O artista que atua há décadas em diálogo com a cena, assinando participações no universo do Grupo Corpo, transfere para a pintura um entendimento de “presença” que vem do palco: cada elemento precisa justificar sua entrada, cada matéria precisa possuir timbre, cada cor precisa cumprir função, como luz numa coreografia. Por isso, muitas peças soam como cenários condensados: não porque representem um lugar, mas porque instauram um regime de atenção, uma atmosfera de acontecimento.
Um traço particularmente persuasivo em Velloso é a relação com a matéria. A obra não tenta esconder o trabalho, nem se contenta com a ilusão de profundidade: ela produz profundidade por fricção. Texturas e suportes acionam uma memória física da construção, e isso reposiciona a pintura fora do virtuosismo fácil. Em vez de seduzir pela “facilidade do belo”, ela ganha densidade pela decisão: o quadro é tratado como organismo, em que cada camada é consequência da anterior, e não máscara. Essa abordagem aparece tanto na descrição recorrente de técnicas e suportes quanto na natureza dos recortes apresentados em mostras e acervos.
A força de Velloso está justamente nessa zona onde rigor e intuição se observam sem se anularem. Há, por um lado, um apetite por controle, um desejo de que a obra não deixe pontas soltas; por outro, uma aceitação rara do risco do processo, do “acidente” como inteligência do material. Quando funciona em plena intensidade, esse equilíbrio produz uma pintura de tensão lenta: não grita, não implora; permanece. E permanecer, num ambiente visual dominado pela velocidade e pela promessa instantânea, é uma forma elevada de ambição.
Se existe um ponto crítico, ele nasce do próprio repertório de virtudes. A obra, quando excessivamente fiel à sua própria gramática, corre o risco de se tornar confortável dentro do seu alto padrão. O desafio, aqui, não é “mudar de estilo” para agradar o mercado, mas preservar aquilo que a melhor fase do artista oferece: a sensação de que o quadro ainda não conhece a sua última forma, que a disciplina não virou fórmula. A maturidade real não é repetição refinada; é precisão renovada.
Em síntese, Fernando Velloso pertence à linhagem rara de artistas para quem a pintura não é um campo de efeitos, e sim um campo de decisões. Ela não pede licença ao espectador, mas também não o manipula. Convida-o a entrar num espaço onde o olhar aprende a durar. E essa é, hoje, uma das formas mais sérias de relevância.
- February 9, 2026

