Parcus Gallery...

Portfolio

Aécio Sarti

 

Aécio Sarti constrói uma obra em que a pintura deixa de ser apenas linguagem visual para tornar-se território de sobrevivência, retorno e permanência. A sua trajetória, marcada por interrupções profundas e reencontros radicais com o ato de pintar, confere à sua produção uma densidade rara: cada obra parece carregar não apenas imagem, mas tempo vivido, atravessado e recuperado.

Desde muito jovem, Sarti demonstrou uma relação orgânica com a pintura, iniciada ainda na adolescência, quando o gesto criativo já se confundia com necessidade vital. No entanto, o longo afastamento da prática artística, provocado por uma depressão que o manteve distante da pintura por quase duas décadas, não aparece na sua obra como lacuna, mas como camada invisível. O retorno à arte não se dá como retomada nostálgica, mas como reinvenção ética: pintar volta a ser um ato de reconstrução interior, e não de afirmação exterior.

É nesse contexto que a escolha dos suportes adquire um significado central. O uso de lonas de caminhão não é um recurso estético ocasional nem uma estratégia de diferenciação formal. Trata-se de uma decisão profundamente simbólica e coerente com a poética do artista. Essas superfícies carregam marcas do tempo, do deslocamento, do desgaste e da travessia. São materiais que já viveram antes de receberem a pintura, e essa memória prévia torna-se parte indissociável da obra. Em Sarti, a pintura não apaga essas marcas; ela dialoga com elas, aceita-as e as transforma em linguagem.

As figuras que emergem dessas superfícies parecem habitar um tempo suspenso. Não pertencem claramente a um passado reconhecível nem a um presente imediato. São corpos e rostos que evocam estados de alma mais do que identidades definidas. Há nelas uma tensão constante entre fragilidade e intensidade, silêncio e desejo, recolhimento e exposição. A imagem não se impõe; ela convida. E esse convite é sempre ambíguo, pois o espectador é levado tanto ao encantamento quanto a uma inquietação discreta, quase íntima.

A paleta, os gestos e a construção compositiva revelam uma pintura guiada menos pela narrativa e mais pela atmosfera. Sarti não conta histórias no sentido tradicional; ele cria climas emocionais. A obra funciona como espaço de projeção, onde memória, introspeção e experiência humana se entrelaçam sem hierarquia. Esse caráter atemporal explica, em parte, a forte ressonância internacional do seu trabalho e a ampla difusão entre colecionadores de diferentes culturas.

Há também, em sua prática, uma disciplina silenciosa que contrasta com o imaginário romântico do artista impulsivo. Mais de quatro mil obras realizadas, catalogadas e distribuídas ao longo de décadas indicam não apenas produtividade, mas compromisso. A permanência em Paraty, longe dos grandes centros, reforça essa postura: a arte não surge como espetáculo, mas como exercício contínuo, quase ritual, entre o ateliê, o espaço expositivo e a vida cotidiana.

Do ponto de vista crítico, a força de Aécio Sarti reside precisamente nessa coerência entre vida, matéria e imagem. Quando a obra atinge sua melhor expressão, ela evita tanto o excesso de sentimentalismo quanto a frieza conceitual. O risco, como em todo trabalho profundamente enraizado numa gramática própria, é o da repetição confortável. O desafio que se coloca à maturidade do artista não é abandonar seus signos, mas continuar a tensioná-los, permitindo que a experiência continue a ferir, marcar e renovar a superfície da pintura.

Em síntese, Aécio Sarti é um artista para quem a arte não é adorno nem discurso, mas campo de reconstrução humana. Sua pintura não procura respostas rápidas nem efeitos imediatos. Ela insiste, permanece e resiste. E é justamente nessa persistência, silenciosa e obstinada, que a sua obra encontra sua maior legitimidade no panorama da arte contemporânea.

Visit Project
Date
  • January 30, 2026
Categories